INACABADO

Olá pessoal…!

Desculpem minha demora em aparecer por aqui Mas precisei esperar minha raiva passar para conseguir reescrever esse meu texto. Pois é, raiva. Pois é, reescrever. Já estava com todo ele feito, terminado, bonitinho, porém sem backup, quando tive meu laptop furtado em nosso stand durante a feira SP-arte. Grrrrrrrrrrrrr (som de raiva).

Bom, mas é vida que segue. E arte é vida, é encantamento, é beleza. Pois então hoje eu queria contar para vocês sobre uma exposição super interessante que vi no final de março em Nova York, na inauguração do Met Breuer, chamada “Unfinished: Thoughts Left Visible”, o que logo podemos traduzir para “Inacabado: Pensamentos Deixados à Mostra”.

Antes só acho legal contar o que é o Met Breuer. Detesto esse povo, não só o povo “artsy”, mas qualquer grupo pertencente a qualquer tribo específica que fica se comunicando praticamente por siglas como se nós, reles mortais, fôssemos obrigados a entender o que está sendo dito. Então vamos lá: O Met Breuer passou a ser o braço moderno / contemporâneo do tradicional museu nova-iorquino Metropolitan Museum, carinhosamente apelidado de Met. O Met é um museu incrível, tem uma coleção maravilhosa, enorme, com obras que vão desde o séc. III A.C., até os séc. XIX e XX. Porém, como não havia espaço físico ali dentro para essa nova ala moderna / contemporânea, então todo esse acervo foi transferido para um outro prédio, ali pertinho do Met mesmo, prédio este que inclusive abrigou por muito tempo o Whitney Museum (o qual agora se mudou para um prédio também muito bacana no Soho). Pronto é isso.

Ok, Met Breuer, check. Agora vamos ao que interessa: o que vi lá dentro. E isso sim foi muito legal. Essa mostra “Unfinished” traz ao público diversas obras inacabadas, obras que vem desde a época do Renascimento, com Ticiano, passando por obras de Renoir, Matisse, Picasso, e terminando com obras hiper contemporâneas. Mas sempre com o mesmo enfoque: trabalhos inacabados, quer seja por falta de interesse do artista, falta de tempo, morte, mudança de cidade, ou até mesmo o intuito de deixar a obra daquela forma, inacabada (estilo non finito).

Olhando para esses trabalhos logo aqui abaixo fica fácil dizer que eles estão inacabados. É evidente que o artista teve algum contratempo e não pôde concluir a obra. Inclusive porque antigamente não existia essa liberdade de expressão que existe hoje. Se um artista resolve deixar um quadro absolutamente inacabado nos dias de hoje, está tudo perfeitamente ok. Mas no passado as coisas não eram bem assim. O formalismo das escolas de arte era algo levado extremamente a sério.

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Virgem e criança com Santo André e São Pedro (incompleto)
Seguidor de Giovanni Battista Cima da Conegliano
Final do séc. XV ou começo do séc. XVI
55.6 × 47.2 cm

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Familia Sagrada com São João Baptista
Perino del Vaga(Pietro Buonaccorsi) (Italiano, Florença 1501–1547 Roma)
1528–1530
Óleo s/ painel
106.6 × 77.6 cm

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Retrato de homem, corpo inteiro, entregando carta a menino, num interior (O Jovem Mensageiro)
Atribuído a Gonzales Coques
Possivelmente em na década de 1640
Óleo sobre painel
55.9 × 44.1 cm

Gem?lde / ÷l auf Leinwand (1845 - 1855) von Adolph von Menzel [8.12.1815 - 9.2.1905] Bildma? 70,5 x 60 cm Inventar-Nr.: A III 508 Person: Adolph von Menzel [8.12.1815 - 9.2.1905] Systematik: Personen / K¸nstler / Menzel / Werke / Gem?lde, Artist: Adolph von Menzel

Alter em um Igreja Barroca
Adolph Menzel
1880 – 1890
Óleo e lápis azul sobre carvalho
50 × 61 cm

Mas e com relação a essas pinturas? Vocês diriam que elas estão inacabadas? Pois é. Também acho que estão ótimas assim. Mas de acordo com estudiosos, sim. Estão inacabadas.

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Família Sagrada com menino São João Batista
Sodoma (Giovanni Antonio Bazzi)
Década de 1530
Óleo sobre madeira
123 × 83.5 cm

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Sibylle
Camille Corot
Década de 1870
Óleo sobre tela
81.9 x 64.8 cm

Talvez caiba aqui uma discussão interessante: qual a hora de parar? Essa é uma reflexão que vale não só para o artista que está pintando. Se a gente for pensar, dá para estender pra milhões de situações. Qual a hora de parar esse texto? Qual a horar de parar uma fala? Qual a hora de parar de por sal na comida? E assim por diante. Mas parando com as minhas filosofias pé de chinelo e voltando a me limitar a arte, acho que vale nessa hora lembrar uma frase que escutei do grande mestre Baravelli em seu atelier: “Tem uma hora que a pintura te expulsa…”. Hmmmmm, sei não, hein Baravelli…. Vai ver que é por isso que ele é o Baravelli e minhas pinturas sempre ficaram uma porcaria! Nunca soube a hora de parar! Mas enfim, vocês pegaram o espírito da coisa, né? Talvez eu, e tantos outros artistas, escritores, cozinheiros e etc, nos enquadremos melhor na frase de Eugène Delacroix que traduzida para o português seria algo mais ou menos assim: “um sempre tem que estragar um pouco a pintura para terminá-la”. E grandes mestres sejam grandes mestres justamente porque sabem a hora de parar. Como disse tão bem Baravelli, a obra te expulsa. Mas isso são outros quinhentos.

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Um autêntico e maravilhoso Anna Maria Marchesi Carbone
Mulher descascando Batata
2012
Acrílica sobre tela
70 x 50 cm

Neoarte.net / Soluções fotográficas para o mercado de arte.

Luiz Paulo Baravelli
Recém Casada n. 2
2016
Acrílica sobre compensado
220 x 160 cm

Na sequência, entramos nas obras modernas e contemporâneas, quando então a licença poética é muito maior. Lógico, com o passar do tempo, há a diminuição do rigor formal, que abre espaço para uma maior liberdade de expressão artística do indivíduo. Obviamente, as obras continuam sendo deixadas inacabadas, como é o caso dessas abaixo:

Portrait d'Olga dans un fauteuil Picasso Pablo (dit), Ruiz Picasso Pablo (1881-1973) Paris, musÈe Picasso

Retrato de Olga em Cadeira com Braço
Pablo Picasso
1918
Óleo sobre tela
130 × 88.8 cm

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Retrato de Hound
Lucian Freud
2011
Óleo sobre tela
158 × 138 cm

Já outras são deixadas inacabadas propositadamente. Como essa tela abaixo da artista Alice Neel. Pelo que entendi com meu super e infalível inglês, a artista conheceu James Hunter, o homem representado na tela, pouco tempo antes dele partir para a Guerra do Vietnam e pediu se podia pintá-lo. Como de costume, ela fez primeiro o esboço na tela, pintou algumas partes e quando foi chamá-lo para o segundo round ele já havia partido para a guerra. Sendo assim, Alice Neel assinou a tela e deu o trabalho como concluído. Aliás, está aí uma boa forma de você saber se o artista considerou seu trabalho terminado ou não. Normalmente, se a obra está assinada, quer dizer quer o artista a considerou pronta.

Oil on Canvas, 60 x 40 inches[NEEL-1323]

James Hunter Recruta Negro
Alice Neel
1965
Óleo sobre tela
152.4 × 101.6 cm

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A Pintora
Marlene Dumas
1994
Óleo sobre tela
200.7 × 99.7 cm

Mas independentemente de qualquer discussão sobre o trabalho ter sido acabado ou não, voluntaria ou involuntariamente, achei muito interessante estar em frente a obras em que eu podia ver resquícios do artista, do pensamento dele, da forma como ele planejava e conduzia o seu trabalho. Acho que isso foi o que mais me interessou no final das contas. Ter acesso a um mundo secreto, nem sempre exposto a nós expectadores, pois não é todo dia que se vê obras inacabadas apresentadas em museus mundo a fora. Então, para mim, a grande riqueza e encantamento foram esses. Essa proximidade que me foi permitida junto a esses grandes artistas. Essa possibilidade de olhar um pouquinho por “debaixo do pano”, “behind the scenes”. Nossa, como fui pedante.

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Retrato Póstumo de Ria Munk III
Gustav Klimt
1917 – 1918
Óleo sobre tela
178.1 × 89.9 cm

Arlequin Titre attribuÈ : Le peintre Salvado en arlequin Picasso Pablo (dit), Ruiz Picasso Pablo (1881-1973) Paris, musÈe national d'Art moderne - Centre Georges Pompidou

Arlequim
Pablo Picasso
1923
Óleo sobre tela
130 × 97 cm

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Retrato de Mariana de Silva y Sarmiento, duquesa de Huescar (1740-1794)
Anton Raphael Mengs
1775
Óleo sobre painel
86.5 × 69.7 cm

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New York City 2 [incompleto, antigo New York City III]
Piet Mondrian
1941
Óleo e fita adesiva sobre tela
114.9 × 98.7 cm

Ok, pessoal. Deu de escrever. Mais uma linha e vocês pegam no sono. Se já não pegaram…

Até!

Ps.: Para ter acesso às demais obras dessas exposição “Unfinished” basta clicar este link: http://www.metmuseum.org/exhibitions/listings/2016/unfinished

  1. Manu Henriques

    17 de maio de 2016

    Ia amei! As pinturas parecem super atuais, fiquei tão curiosa! Adorei seu texto e as imagens, obrigada por dividir!

  2. Olivia Tabet

    19 de maio de 2016

    Que máximo!!! Adoraria ter visto essa exposição!
    Algumas das obras que mostrou são tão maravilhosas nesse estado que venero elas assim, com o fim eternamente por chegar…
    ????????????????????????

  3. Mariana Abud

    18 de junho de 2016

    Muito bom!
    Depende muito do olhar mesmo, também fiquei curiosa, a gente nunca sabe o que está por trás de uma obra, né?

    Escreva mais!
    ????

  4. Mariana Abud

    18 de junho de 2016

    Muito bom!
    Depende muito do olhar mesmo, também fiquei curiosa, a gente nunca sabe o que está por trás de uma obra, né?

    Escreva mais!
    ????

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