Espaço

Olá pessoal…!

Espero que vocês se lembrem do tema do meu primeiro texto e, seguindo esse mesmo caminho, começo esse novo post com uma frase que li esses dias do cineasta Stanley Kubrick: “The truth of a thing is the feel of it, not the think of it”. Algo em portugês como: “a verdade de algo é sentir, e não pensar”.

Como arte, para mim, muitas vezes tem tudo a ver com “sentir, gostaria hoje de dividir com vocês uma experiência que tive no museu Istanbul Modern (Istambul/Turquia) com a obra “Strange Fruit”da artista turca Hale Tenger, obra esta pertencente ao acervo do museu.

Muito mais que apenas apresentar seu trabalho, a artista cria uma verdadeira atmosfera em torno de sua obra, convidando publico a adentrar um mundo poético, onírico e muito particular pertinente à própria artista.

Hale_Tenger_1

Num primeiro momento você, espectador, atravessa uma densa camada de plumas brancas para só então chegar a um ambiente escuro, frio, em que se nota, num primeiro plano, imerso/solto em meio a uma constelação de  estrelas, o globo terrestre. Uma música muito específica e contundente toca ao fundo (uma adaptação das Bachianas Brasileiras de Heitor Villa Lobos), quando então uma outra parte do quarto escuro se abre, e conseguimos ver uma segunda esfera, essa menor, causando ao visitante a sensação de profundidade, de estar perdido no espaço , flutuando à deriva na imensidão do Espaço. Para completar a sensação de desorientação, um dos globos está de cabeça para baixo. Obviamente a obra tem toda uma questão política de pano de fundo, mas por ora gostaria de focar apenas na questão do sentimento. Entrar em contato com esse trabalho foi algo muito impactante. A obra havia me tocado. Exatamente como acredito que deva acontecer.

Talvez essa tenha sido uma experiência interessante dado o meu fascínio pelo Espaço e, mais especificamente, por astronautas. Desde que me entendo por gente esses assuntos mexem com meus brios, evocando sensações de diversas ordens dentro de mim.

Cristina_de_Middel_3

Justamente por isso, também me encantei pela série Afronauts da fotógrafa espanhola Cristina de Middel, que retrata um programa espacial, abandonado na década de 60, para envio de astronautas africanos da Zambia para a Lua e depois para Marte. As imagens são fortes e delicadas ao mesmo tempo, e todo o trabalho tem um toque de ironia, de incredulidade. O projeto consistia em treinar e enviar ao espaço, por um sistema de catapulta, uma garota e dois astronautas africanos juntamente com 10 gatos. Todos foram treinados localmente para a missão. Rolaram colina abaixo dentro de barris de óleo para treinar como seria viajar no Espaço; caíram da corda bamba para treinar queda livre. A idéia da artista é justamente que o espectador olhe a obra e questione: “isso é verdade ou não?”. Toda essa temática espacial, juntamente com o fato real da Zâmbia ter um dia buscado tão desajeitadamente um espaço ao sol, me fez sentir algo bastante peculiar e forte com relação a obra de Cristina Middel.

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Também não ficou atrás o trabalho de Vania Mignone de 2014 que mostro a vocês logo abaixo. A tônica parece ser a mesma. Espaço, astronauta. Mas se você olhar bem, tudo é diferente. A protagonista é uma mulher. Forte , moderna, resolvida, independente, porém exausta. A impressão que me deu foi a de que ela precisava  de um tempo fora. Na lua quem sabe. Ou em qualquer outro planeta. Pois a vida terrestre já a havia consumido por inteiro. O que vemos ali é apenas a carcaça. Seu interior jaz vazio. Essa mulher necessita viajar para se reencontrar, para fazer as pazes consigo mesma, para ser feliz novamente. Ainda que seja na lua. Na mala, ela leva apenas o que restou de si: os cacos que precisam ser colados do que outrora chamou de “eu”.

vania_mignone

Para arrematar a minha saga no espaço sideral, vale falar de um trabalho do fotógrafo carioca Paulo Avelino Costa. Por razões óbvias essa obra me chamou atenção, afinal o assunto vai de encontro com todo esse universo que me é tão fascinante. Mesmo sabendo que aquele não é o retrato de uma situação real, que aquele astro que brilha é uma lâmpada e não o Sol ou a Lua, e que aquele astronauta não é realmente humano ou está realmente no Espaço, não me canso de olhar para aquela imagem e admirar a fluidez que lhe escapa. Aquele corpo gravitando, sem direção, numa escura imensidão, à deriva, quase que como um bebê dentro do ventre materno. O contraste do fundo preto com as imagens flutuando silenciosamente em branco. Como pode uma imagem trazer sensações tão díspares de aconchego e desamparo ao mesmo tempo? Como pode transmitir tranquilidade e medo do desconhecido em uma mesma fotografia? Essa é mais uma das delícias do mundo das artes, e acredito que essa imagem englobe qualidades significativas o bastante para, como quis dizer Kubrick, comunicar a essência da obra.

Astronauta

No fundo, acho que todos esses 4 trabalhos/artistas inspiram uma certa desesperança ou talvez um desapontamento. Na obra de Hale Tanger, nos vemos dentro daquele ambiente escuro em torno dos globos reluzentes como astronautas, mas logo nos deparamos com a verdade nua e crua que não passamos de míseros mortais em um museu no meio de Istambul. No caso da série Afronauts de Cristina de Middel, a falta de recursos do continente Africano para disputar um corrida espacial em pé de igualdade com EUA e Rússia na década de 60 também gera um sentimento de desesperança, de incapacidade, uma negatividade n o ar. Já na obra de Vania Mignone, a desesperança surge como um fuga, um escape. E mesmo a fotografia de Paulo Avelino Costa, essa situação totalmente irreal e simulada cria desapontamento, como se a verdade não fosse possível de se alcançar. Enfim, vocês entenderam, né?

E se no texto de hoje tivemos como fio condutor a temática da arte relacionada ao universo e aos astronautas que por aí transitam e os sentimentos que nos evocam, não consigo pensam em outra forma de me despedir a não ser pelas palavras do já saudoso David Bowie:

“(…)
I’m sleeping trough the door
And I’m floating in the most peculiar way
And the stars look very different today”

Até mais!

Imagens: Reprodução

  1. dino

    14 de março de 2016

    Estou aprendendo e gostando.
    Bjs

  2. Viviane Carolo

    14 de março de 2016

    em profundo mergulho silencioso ecoam suas palavras, obrigada pela experiência gerada…

  3. Paulo Avelino Costa

    14 de março de 2016

    Muito bom o texto, Ia, dá pra entender como o espaço mexe com você e como você transforma isso em arte. Uma curiosidade, na minha foto, embaixo à direita e bem pequenino, há um sinal de “EXIT”. Acho que com esse detalhe, que aparece bem na foto em tamanho grande, há uma conversa desta foto com o incrível “NÃO VOLTO”, da Vania Mignone, .

  4. bruna

    13 de abril de 2016

    Que texto lindo!!!!

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