ELE

Havia sido uma semana muito difícil. Na verdade, um mês muito complicado. Olha, para ser muito honesta, um ano inteiro pra lá de delicado: problemas de doença na família, várias notícias ruins pipocando em cima de gente que amo e que não merece passar pelo que está passando, e claro, euzinha, esse ser simples e descomplicado, com todos os meus 200kg, talvez 300kg, de assuntos pessoais, questionamentos íntimos e divagações na casa dos milhares. Então dá para entender o aparecimento DELE. Pois é, para entender, racionalmente, talvez até realmente dê, mas de forma alguma estou aqui dizendo que foi fácil. Acho que nunca foi, ou será, em hipótese, geração ou civilização alguma, para uma mulher, quiçá para algum ser humano, notar o aparecimento dos primeiros fios de cabelo branco e, assim, dar-se conta do próprio envelhecimento.

E lá estava eu, de fronte (claro, porque quem tem cabelo branco e fica velho não fala mais “em frente” e sim “de fronte”) ao espelho, bela, recatada e velha, encarando o filho duma eguinha e ELE lá, orgulhoso, insolente, me encarando de volta, sem um pingo de compaixão. Sim, porque, lógico, ELE não nasceu no meio da minha cabeça, como qualquer outro 1º fio de cabelo branco em qualquer outra pessoa normal. Nããããoooooo! ELE tinha que aparecer! Tinha que se fazer notar! Tinha que nascer bem no meio da minha testa, pra mostrar a mim e pra todo o universo sideral o tamanho da sua força, do seu poderio e a sua superioridade.

Pois bem, pensei, vou arrancar esse bastardo. Vou cortar o mal pela raiz. Não é justo que eu, aos 36 anos, na flor da minha idade, tenha uma porcaria de um fio de cabelo branco louco, duro, espetudo e eriçado bem no meio da minha doce e tenra testa (pequeno parêntese: eu sei que tem um monte de gente que ganha cabelo branco com muito menos idade. Talvez eu seja até sortuda por só achar esse infeliz aos 36. Talvez eu até tenha uns outros perdidos no meio do reflexo loiro e não esteja vendo – graças a Deus. Mas tenho certeza absoluta que a sensação de pânico, indignação, ódio, espanto e “isso não pode estar acontecendo comigo” pegou todo mundo do mesmo jeitinho…).

 

desktopFotos ilustrativas tiradas em diversas datas que comprovam que eu não estou mentindo. ELE é louco, duro, espetudo e eriçado.

 

Uma semana se passou sem que eu conseguisse me livrar do maledeto cabelo branco. Parecia que toda vez que eu colocava a mão NELE… páááá, uma força diabólica do exu empurrava meu braço pra baixo. Não sei nem explicar. Fato é que eu me sentia totalmente incapaz de eliminá-lo. Muito pior que isso – começara (estão vendo? Outra vez a anciã que mora em mim começa a fazer uso desses tempos verbais absurdos) a respeitá-lo.

Estava, pois, decidido: ELE não seria mais arrancado e sim incorporado ao meu “eu”. Ficaria ali, seria respeitado. Eu o estimaria e o respeitaria até o fim dos meus dias, e em troca ELE ficaria ali, plantado, como um lembrete, estampado bem no meio da minha testa, de que a vida passa muito rápido, de que precisamos aproveitar nossos momentos diaria e intensamente e de que tem muita coisa que a gente não controla, por mais que a gente queira e se esforce. Esse fio de cabelo branco vai ficar grudado ali para me lembrar todo dia que nem sempre conseguimos dar conta de tudo, de equilibrarmos todos os pratos de uma só vez. Tem dia que mal conseguimos equilibrar um simples pires, caramba! Somos humanos. O importante é darmos sempre o melhor da gente, sempre que possível e blábláblá. Credo! Está parecendo trecho de livro de autoajuda barata. Pronto, parei. Mas enfim, entenderam o pulo do gato né?

No mais, e para terminar, eu entendo que deveria estar aqui escrevendo sobre arte para vocês, afinal era esse o nosso combinado. Arte, e não cabelo branco. Mas, se pensarmos bem, e se ampliarmos o conceito, nada do que falei hoje deixa de ser arte. É a arte de viver. E de eventualmente saber – ou não – envelhecer.

Obs.: Por favor não confundam a palavra respeitar com gostar de ver. Disse que meu 1º fio de cabelo branco seria respeitado, e realmente será. ELE e todos os demais porvir. O que não quer dizer que eu não os disfarce – e muito – ao longo do tempo. Uma coisa é respeitar / não arrancar, outra bem diferente é conviver com uma cabeça cheia DELES.

Até!

Anna Maria

  1. dino

    26 de setembro de 2016

    Bom, o que voce escreveu também é arte.
    BJS

  2. Marcela

    27 de setembro de 2016

    Nem notei o fio branco, somente o dom dessa minha antiga amiga, não sei se antiga amiga ou amiga antiga, enfim, da escrita! Uauuuuu….. me senti lendo um livro clássico…..vc é demais, mesmo com cabelos brancos, os quais Ainda não tenho!!!!

  3. Marcela

    27 de setembro de 2016

    Quanto orgulho dessa amiga antiga, (ou antiga amiga?, as duas formas servem para se referir a ela….), que dom maravilhoso da escrita…. me senti em um conto clássico!!! E desculpe a colocação, mas ainda não tenho cabelos brancos! Bjao e parabéns Le…… escolha ímpar para rechear o blog!

  4. Ieda

    29 de setembro de 2016

    Anna,amei este texto! Não conhecia depois destes doze anos está tua veia artística. Estou mta orgulhosa Bjooooos

  5. Lele

    29 de setembro de 2016

    Aqui da turma que teve seus primeiros fios aos 22 anos….sim, muito precoce…e que nem consegue contar os fios pretos ultimamente….te digo, a vida é arte, ter essa sensibilidade em percebê-la é arte, vc é uma grande artista, mega sensível e muito gata!!! Quando crescer quero ser simples e artística assim!

  6. Ge Carolo

    03 de outubro de 2016

    Orgulho enorme de vc,
    Texto brilhante!

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